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BRINCAR A TERRA: Oficina Infantil Guardiões da Terra
No segundo dia de Plante Rio, no espaço Canto das Flores, recebemos a Oficina Infantil Guardiões da Terra, realizada pelo grupo GiTaKa- UniRio: Grupo Infâncias, Tradições Ancestrais e Cultura Ambiental, coordenado por Léa Tiriba. A atividade foi realizada pela pedagoga Tatiana Mello e pelo biólogo e educador Wagner Manoel, buscando oferecer às crianças um espaço de brincadeira e criatividade, estimulando a autonomia e a sensibilidade.
Os objetivos se expressaram através da dinâmica da oficina, que em seu primeiro momento, buscou receber os pequenos de maneira livre, permitindo que as crianças conhecessem o espaço e seguissem suas curiosidades iniciais. O ambiente incluía diferentes zonas, como um cantinho de leitura com títulos nacionais, que abordavam a temática da biodiversidade e meio ambiente, um espaço de brincadeira e imaginação com argila e, além disso, uma zona de criação de desenho e pintura que contava com materiais artísticos.
Após este primeiro momento, a atividade se encaminhou para brincadeiras que envolvessem a prática corporal, com chamadas para o correr e o pular, buscando deslocar a aprendizagem para o campo da corporeidade. A cantiga “Guerreiros Nagô”, forma nativa da brincadeira do povo africano Iorubá, popularizada pelos colonizadores portugueses como “Escravos de Jó”, dissipou com proeza a eletrizante energia das crianças a cada toque do pé ao chão, enquanto resgata memórias ancestrais de resistência.
No clímax da atividade, Tatiana e Wagner se sentam em roda com os pequenos, acompanhados de uma grande mala de couro, que já despertava olhares curiosos acerca de seu conteúdo, posteriormente revelado com a contação de história. A narrativa introduziu a prática do semear e do plantar, a partir da crônica de uma semente de feijão-verde de origem sertaneja. A ficção se iniciou contando o paradeiro inicial da semente do Nordeste do Brasil até a Cidade do Rio de Janeiro, no Sudeste. Nesse momento, Tatiana retira de sua grande mala a semente protagonista da história e convida os pequenos, prontamente agitados, a plantar a espécie da narrativa. Foi notória a animação dos juvenis ao colocar suas mãos na terra úmida e sentir a matéria orgânica fofa ao toque.
A pedagoga Tatiana Mello atribuiu essa reação a biofilia, que pode ser entendida como a atração inerente do ser humano ao orgânico, dado a sua semelhança com tudo que é vivo. A biofilia se apresenta como uma proposta contra-dominante ao se contrapor a ideias de cosmofobia, termo criado por Antônio Bispo dos Santos, que descreve a aversão a tudo que nos conecta com a terra e a natureza, caracterizado pela lógica eurocentrista e colonialista do ocidente.
A apresentação de narrativas ancestrais, o estímulo da biofilia e da liberdade são eixo das atividades propostas pelo grupo GiTaKa, que se dedica a pesquisas-intervenção contra-hegemônicas e de cosmovisões nativas, que convertem a lógica devastadora do capitalismo colonialista e que buscam tecer uma relação de sincronia e emancipação entre as crianças e a natureza. A iniciativa é um exemplo inspirador de sonhar novas narrativas que criam novos modelos de sociedades onde a integração da natureza e a justiça climática sejam realidade. A polinização de novos imaginários se faz a partir do brincar a terra.
Redação Plante Rio:
Matéria de Milena Albuquerque
Fotos de Milena Albuquerque
Supervisão de Clara Lugão e Iago Damasceño