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A crise comunicacional, a importância do território e a pauta antirracista: roda de conversa abre o Plante Rio

A roda de conversa que abriu o Plante Rio — que celebra 10 anos em 2026 e acontece nos dias 18 e 19 de setembro, na Fundição Progresso — colocou na mesa: a crise na comunicação, a relação com o território e como construir uma pauta antirracista de verdade, a partir do afeto e da valorização. A mesa reuniu três convidadas: Grasiela Cordeiro, comunicadora popular e educadora social, que atua também como coordenadora pedagógica no Observatório de Favelas do Rio de Janeiro; Dani Moura, jornalista premiada, Mestra em Comunicação Digital e Jornalismo de Dados pela Fundação Getúlio Vargas; e Flávia Campuzano, jornalista e fotógrafa, que atua na coordenação de Novos Negócios no #Colabora - Jornalismo Sustentável. A mediação ficou por conta de Cristina Nogueira, comunicadora, produtora cultural e diretora da Fundição Progresso. Juntas, elas trouxeram reflexões acerca da interdependência entre comunicação, território e afeto.  

Grasiela Cordeiro abriu o bate-papo com uma fala que sintetiza o imaginário da roda: as favelas têm que ser vistas como ponto de partida e um lugar de afeto e de cultura, não só um lugar de carência. Advinda do Complexo da Coréia, em Senador Camará, ela falou sobre a importância dos territórios periféricos, explicou que não se trata de uma romantização, e sim de uma valorização. Neste sentido, para a construção de uma comunicação antirracista e afetiva, é crucial centralizar o recorte territorial nas narrativas. “Não dá pra falar de Grasiela sem falar de território”, ela afirma de forma entusiasmada. Essa perspectiva se expande para a  sua proposta pedagógica ao buscar reconhecer o território como fonte de repertório e de produção de conhecimento. Assim, a comunidade que habita aquela localidade são criadores de saberes nas mais diferentes áreas: saúde, educação, arquitetura, entre outros. Ao reconhecer aquele “cria” como fazedor de conhecimento e de ciência, a identificação e a conexão entre educadora-estudante nasce. O conhecimento é criado junto, a partir do diálogo e buscando a libertação social do indivíduo, como já trazia Paulo Freire, com sua proposta de educação popular, que rejeita a transmissão unilateral do conhecimento. E a partir da chegada do “cria” na comunicação se torna possível chegar no outro, através da linguagem e da identificação. Nesse momento, se torna possível disputar por narrativas no clima e nas culturas de maneira antirracista e afetuosa.

Na sequência, Dani Moura expôs a crise comunicacional que vivemos em tempos de economia da atenção. O conceito de Economia de Atenção percebe o modelo de gestão que trata o foco como recurso escasso e valioso, transformando-o em mercadoria. A ideia ganha materialidade nas plataformas digitais, onde o excesso de informação e o “down scroll” gera dificuldades de atenção. E, assim, defende a retomada de formas ancestrais de fazer comunicação, propondo que a solução para uma comunicação mais afetuosa e mais crítica é a partir da retomada da simples escuta intencional, compreensiva e inclusiva. Ela chama a atenção para a falta de pessoas pretas e advindas das favelas nas produções de narrativas em salas de redação. Para ela, comunicar com afeto e escutar faz toda diferença. "Falar da gente pra gente, a gente sabe. Mas como falar da gente pro outro? Para aquele negacionista?", ela inflama. Diante da proposta de se comunicar com e para o território a partir do afeto, a jornalista sai em defesa do humor para difundir dados e notícias climáticas, muitas vezes densas e inacessíveis, com leveza e qualidade. O humor é apenas uma das diversas ferramentas que possamos usar para criar uma comunicação acessível, antirracista e afetuosa. O formato e a linguagem da comunicação também são fatores que podem ajudar a difundir as narrativas. Assim, ela ressalta o papel do impresso na resistência contra os meios de comunicação hegemônicos. Formatos como o Lambe-lambe, nascem da mobilização popular é se mostram uma forma acessível e crítica de disseminar as narrativas do território. 

Flávia Campuzano, acrescentou que ocorreu uma perda coletiva na capacidade de escutar o outro. Segundo ela, essa dificuldade de escutar o próximo se intensificou nos últimos anos e dificultou o diálogo entre diferentes grupos sociais. Além disso, deixou um recado: a responsabilidade pela comunicação não é só de quem estuda o assunto — é geral. Para ela, essa é uma responsabilidade coletiva, já que cada um, em sua medida, atua como agente comunicador em seu cotidiano — seja na maneira que fala, compartilha informações ou se relaciona com o outro. Nesse sentido, a comunicação não se limita na transmissão de informações, mas trata da capacidade de criar diálogos e estabelecer pontes, especialmente no cenário atual, tão marcado por diferentes fluxos de informação. Além disso, foi reforçada a importância da linguagem acessível na comunicação, com a ação do jornalismo independente, que possa atingir todos os públicos. 

O debate deu o tom de abertura aos dois dias de programação do Plante Rio, reforçando o compromisso do evento com as questões e discussões que atravessam território, raça, classe, comunicação e representatividade, na edição que comemora seu aniversário de uma década.

REDAÇÃO PLANTE RIO:

Matéria de Letícia Santana e Milena Albuquerque 

Fotos de Maria Clara Paiva 

Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva