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Comida de verdade: o almoço agroecológico que alimentou a Redação Plante Rio 10 anos
Antes mesmo de sentar à mesa, quem passou pelo almoço agroecológico da programação do Plante Rio nessa sexta, dia 18, já sabia: aquele não seria um almoço qualquer. Servido pelo GT Mulheres da Serramar, o cardápio carregava histórias de terra, de coletivo e de resistência. Por trás dos pratos está Dona Léia, do assentamento Vista Alegre, uma das responsáveis pelo grupo. Em conversa com a Redação Plante Rio, ela contou como tudo começou: "Através de uma parceria com uma viveirista, que a convidou para preparar um almoço em sua própria casa. O convite virou rotina, e a rotina virou rede. Hoje, o grupo reúne diferentes mutirões, o do Feijão, o dos Quintais (com ovos e galinha caipira para a merenda escolar) e a Rede Agroecológica, que nasceu ainda no Mico-Leão-Dourado.
"Hoje nós temos o GT Mulheres que não é só da área alimentar, também tem os perfumes, que elas fazem", contou Dona Léia, destacando que o trabalho vai muito além da comida. Para ela, plantar o que se come muda a relação com o alimento e com a própria vida. "A gente tem uma qualidade de vida melhor, porque a gente sabe o que está comendo e o que está oferecendo", disse, lembrando que produzir na terra também garante uma renda mais justa, longe da instabilidade do mercado.
O que o público viu e sentiu
Entre as opções do cardápio criado para o evento, feijoada, moqueca de banana da terra, feijoada vegana e galinha caipira, além de sucos naturais e sobremesas. Entre quem esperava a comida, a expectativa também tinha camadas. A antropóloga Simone Benito, que já conhecia o trabalho do grupo, destacou a importância de saber que aquele alimento vinha de terra cultivada sem agrotóxico. Já João resumiu bem o espírito do evento: "Na agroecologia a gente fala de comida de verdade, e a gente está acostumado a comer comida que não é de verdade. Poder estar num espaço
discutindo agroecologia, justiça climática, e se alimentar de uma comida produzida por esse grupo de mulheres é muito privilégio e muita felicidade."
Carlos, estudante de jornalismo, trouxe a discussão para o campo da desigualdade: para ele, comer bem hoje é, sim, um privilégio. Uma família de classe média consegue acesso a alimentos saudáveis e cultivados com cuidado; já famílias com menos recursos muitas vezes recorrem ao que é mais barato e industrializado, mesmo achando que "arroz, feijão e frango" já resolvem. Para Carlos, iniciativas como a do GT Mulheres da Serramar mostram um caminho: buscar conhecimento, entender de economia e de alimentação saudável como ferramentas de transformação.
Mais do que um almoço
No fim, o prato servido pelas Mulheres da Serramar carregava o que nenhum cardápio impresso consegue explicar: décadas de organização coletiva, agroecologia como prática de vida e comida como território de disputa, entre o que é produzido com cuidado e o que é vendido como solução rápida. Um lembrete de que, antes de chegar à mesa, toda comida percorre um caminho.e esse caminho importa.
REDAÇÃO PLANTE RIO:
Matéria de Luiza Villeroy
Fotos de Maria Clara Paiva
Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva