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Economia para um planeta vivo
Como construir uma economia que respeite os ciclos da natureza? Essa é uma das reflexões semeadas no primeiro dia de programação pelos 10 anos de Plante Rio
A economia não deveria espalhar sementes como na agrofloresta? A segunda roda conversa da programação do Plante Rio 2026, “Economia para um Planeta Vivo”, reuniu Laysa Rocha Soares (UFRJ), Leandro Almeida (Saúva-Jataí), Flavia Macedo (Muda), Francisco Figueiredo (Índica) e Guilherme Eufrasio Pinheiro (Mestrando da UFRJ) para trocar ideias sobre outras economias e formas de relação com o meio ambiente em contexto de esgotamento dos recursos naturais e crise climática.
Rodrigo Junqueira e Patricia Vaz, do Mutirão Agroflorestal e mediadores da roda, iniciaram a conversa com algumas provocações: afinal, é possível uma economia que colabore com o planeta? A reflexão partiu da própria experiência do Mutirão Agroflorestal, que há 30 anos se dedica à regeneração ambiental, à agroecologia e aos Sistemas Agroflorestais (SAFs).
Guilherme Pinheiro, mestrando em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), iniciou a conversa recuperando a história colonial do Brasil e lembrando que o sistema econômico atual é apenas uma possibilidade. Para ele, antes da lógica eurocêntrica do “corte”, havia relações baseadas na abundância e em outra forma de convivência entre seres humanos e natureza. Observar a experiência de povos indígenas e comunidades tradicionais, que há 500 anos resistem a diferentes fins do mundo e ao ecocídio, pode ajudar a imaginar novos caminhos para a economia, segundo Pinheiro. A própria Amazônia, é resultado da relação e da ação direta dos povos indígenas sobre a floresta, reforça o economista.
Para Laysa, professora de economia na UFRJ, é possível buscar uma economia que precifique e pague pelos danos causados à natureza pela exploração humana, que mitigue os efeitos da crise climática e que busque mais abundância e distribuição de riquezas. No entanto, não dentro da economia de mercado que temos hoje. Desde a década de 1970, os impactos ambientais do capitalismo transcenderam a academia e passaram a ocupar o mercado por meio de mecanismos de cálculo de compensação, como o mercado de carbono, por exemplo. Laysa reforça que esse processo, porém, não pode transformar bens essenciais à vida em mercadorias - como já há indícios de milionários estocando água potável, diz a professora.
Francisco Figueiredo relembrou a diferença de pensar economia e mercado, ambos baseados na lógica capitalista, e tratados muitas vezes como sinônimos. Para ele, é preciso pensar em soluções que atuem nas duas frentes ao mesmo tempo: encontrar caminhos dentro do sistema atual e, paralelamente, construir outras formas de organização econômica.
Um exemplo dessa atuação dentro do sistema financeiro é a Saúva-Jataí, organização de fomento e fundo de investimento sem fins lucrativos que apoia projetos socioambientais. A iniciativa foi apresentada por Leandro, gestor da organização, que defendeu modelos de financiamento capazes de aproximar o mercado financeiro dos processos produtivos e reduzir as chamadas externalidades, impactos gerados por uma atividade que não são considerados dentro do próprio processo - sobretudo os socioambientais. Ele ainda falou sobre as externalidades, ou seja, os fatores e impactos que não são considerados na balança no sistema econômico atual, trazendo a importância de pensar novos formatos que pensem em todas as pessoas, seres, ambiente envolvidos em cada processo produtivo.
Outra ação que busca novos caminhos é a Muda, outras economias, iniciativa apresentada por Flávia que visa uma moeda baseada na troca e cooperação, num sistema em que é possível trocar serviços, produtos e ações a partir de uma rede de relações. A proposta permite a circulação de serviços, produtos e ações, criando outras possibilidades para a economia no âmbito das comunidades.
Além disso, assuntos como créditos de carbono, discussões internacionais em COPs, mercado verde, foram abordados. Dessa forma, a partir de diferentes visões, a roda trouxe ideias práticas e projetos de mundo idealistas sobre uma economia mais justa, que pense, assim como a agrofloresta, em abundância e distribuição de energia e riqueza, e não na busca de permanente crescimento e concentração de riquezas. Afinal, economia, palavra que em sua origem significa gestão do lar, pode e deve ser um espalhamento de sementes.
Ao final da roda, Aline Valentim, artista residente da Fundição Progresso e professora de Dança Afro, fez uma apresentação artística de enceramento com contação de história e dança afro. Acompanhada de batuque, ainda colocou todos para dançar ijexá, numa reverência e referência à cultura afro-brasileira e à ancestralidade.
A edição comemorativa deste ano marca os 10 anos de Plante Rio com o tema “É Tempo de Mutirão”, aos pés dos Arcos da Lapa, na Fundição Progresso. O evento comemora também os 30 anos do Mutirão Agroflorestal.
REDAÇÃO PLANTE RIO:
Matéria de Tainá Junqueira e Luna Galera
Fotos de Maria Clara Paiva
Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva