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Mutirão pelo Clima: quando a transformação começa pela ação coletiva

Roda de conversa do Plante Rio 10 anos reuniu diferentes experiências de luta ambiental e mostrou como organização popular, conhecimento e participação coletiva podem transformar territórios

“Se a terra for boa, se o tempo ajudar, a semente um dia há de brotar”. A frase que abriu a roda de conversa “Mutirão pelo Clima”, no Plante Rio 10 anos, sintetizou o espírito do encontro: a ideia de que mudanças precisam ser cultivadas coletivamente. Realizada na programação do Plante Rio – É Tempo de Mutirão, na Fundição Progresso, a conversa reuniu a mediadora Aline Matulja e os convidados Marcelo Motta, da PUC-Rio; Aline Marins, do Coletivo Martha Trindade; William Cruz, do Fórum de Cultura Popular da Baixada; e Helena Maltez, do Mutirão Agroflorestal. A atividade teve abertura de Mestre Célio.

A proposta do encontro dialogou diretamente com o tema da edição comemorativa de 10 anos do Plante Rio, que em 2026 adotou o mote “É Tempo de Mutirão”, buscando aproximar saberes ambientais, culturais e comunitários. 

Da mobilização popular à política pública 

Ao longo da conversa, os participantes apresentaram experiências diferentes de atuação socioambiental, mas que têm em comum a  organização coletiva. A ideia de mutirão apareceu não apenas como uma forma de realizar uma tarefa em conjunto, mas como uma maneira de construir respostas para problemas que atingem comunidades inteiras. Nas anotações do encontro, a relação entre organização popular e transformação social aparece como um dos pontos centrais: décadas de mobilização podem contribuir para transformar demandas sociais em políticas públicas.

A discussão também recuperou experiências de organização comunitária ligadas à denúncia de problemas ambientais em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio. O caso da chamada “chuva de prata” foi apresentado como exemplo de mobilização diante da suspeita de emissão de partículas por uma atividade industrial. Segundo o relato apresentado na roda, moradores não tinham inicialmente acesso aos dados técnicos necessários para compreender o problema. A partir da organização coletiva e da vigilância ambiental, o grupo passou a utilizar equipamentos de medição e identificou níveis acima dos permitidos na região. 

A experiência reforçou uma ideia presente durante o debate: o conhecimento técnico pode ser importante, mas a participação dos moradores também produz conhecimento sobre o território.

Justiça climática é também uma questão de território

A discussão sobre clima não ficou restrita às mudanças na temperatura ou aos fenômenos naturais. Racismo ambiental, desigualdade e direito à cidade também apareceram entre os assuntos abordados. Aline Marins compartilhou sua trajetória de aproximação com a luta ambiental e destacou sua relação com comunidades e territórios afetados por problemas socioambientais. Em suas palavras, aparece também a referência à sua origem como filha de pescador e à discussão sobre racismo ambiental. A presença dessas experiências no debate amplia a compreensão sobre a crise climática: seus efeitos não são distribuídos de maneira uniforme e atingem de formas diferentes os territórios e as populações.

Chuvas fortes, ondas de calor e ventos extremos podem se transformar em perdas materiais, deslocamentos e situações de emergência para comunidades que já convivem com outras formas de vulnerabilidade. 

“Não queremos fazer mutirão depois da tragédia”

Para William Cruz, a ideia de mutirão não deve ser reduzida à mobilização para ajudar pessoas depois que uma tragédia acontece. A reflexão apresentada durante a roda foi justamente a necessidade de agir antes que os impactos aconteçam. A provocação pode ser resumida na pergunta: por que esperar uma pessoa perder a casa em uma chuva para então organizar um mutirão? O mutirão, nesse sentido, também pode ser uma ferramenta de prevenção, organização e reivindicação.

A ação coletiva aparece como uma forma de pressionar por mudanças e construir alternativas para que situações de emergência não sejam tratadas apenas depois que acontecem. A fala também destacou que políticas públicas são necessárias, mas que a organização da
sociedade continua sendo parte fundamental desse processo. Diante de ondas de calor, chuvas intensas e ventos fortes, a coletividade pode funcionar como uma forma de proteção e mobilização.

A agrofloresta como prática coletiva
Helena Maltez levou para a conversa a experiência do Mutirão Agroflorestal, que completa 30 anos em 2026. A data foi incorporada à programação do Plante Rio, que também celebrou três décadas de atuação do movimento. Um dos pontos levantados foi a necessidade de repensar a ideia de que toda resposta para a crise ambiental precisa necessariamente ser tecnológica. A tecnologia pode fazer parte das soluções, mas a agrofloresta também depende de conhecimento sobre o território, manejo, biodiversidade e, principalmente, de processos
construídos em conjunto. 

A discussão colocou em contraste modelos de agroflorestas manejadas e a preservação de florestas nativas, reforçando a necessidade de compreender que diferentes estratégias ambientais cumprem funções distintas. Helena também destacou a importância de facilitar processos coletivos. Mais do que criar ferramentas, a transformação passa pela capacidade de as pessoas se organizarem para colocar essas ferramentas em prática.

Inovação também é saber se conectar

Marcelo Motta trouxe para o debate uma reflexão sobre o próprio significado de inovação. Em vez de associar inovação apenas à criação de novas tecnologias, a discussão propôs pensar o conceito a partir da capacidade humana de questionar, desenvolver senso crítico e encontrar soluções coletivamente. A inovação, nessa perspectiva, também acontece quando pessoas diferentes se conectam para enfrentar um problema comum.

A ideia atravessou diferentes falas da roda: conhecimento científico, experiência comunitária, cultura popular e práticas ambientais não precisam atuar separadamente. É justamente no encontro entre esses saberes que novas possibilidades podem surgir. 

Da capoeira ao mutirão

A abertura com Mestre Célio também ajudou a criar uma conexão entre cultura popular e mobilização comunitária. A própria noção de mutirão pode ser relacionada a práticas tradicionais de organização coletiva. A expressão vem do tupi moty’rõ, associada à ideia de trabalho em comum, e é apresentada pelo Plante Rio como uma prática historicamente presente na cultura brasileira. Nesse sentido, a cultura popular não aparece apenas como apresentação artística dentro da programação. Ela também pode ser compreendida como espaço de encontro,  transmissão de conhecimento e organização.A relação entre capoeira, território e comunidade reforçou a ideia de que a luta ambiental não acontece apenas em espaços acadêmicos ou institucionais. Ela também está nas ruas, nas comunidades e nas práticas culturais.

O futuro é construído no presente 

Ao reunir pesquisadores, integrantes de coletivos, representantes da cultura popular e pessoas envolvidas diretamente com práticas ambientais, o “Mutirão pelo Clima” apresentou uma questão que atravessou toda a conversa: não existe uma única solução para a crise climática. O caminho passa por diferentes conhecimentos e formas de organização. A mensagem do encontro também dialoga com o próprio tema da décima edição do Plante Rio. Se é tempo de mutirão, a proposta não é apenas falar sobre mudanças, mas pensar como agir coletivamente para produzi-las. A semente citada na abertura da roda volta, então, como metáfora para o debate. Ela precisa de condições para crescer, mas também precisa ser plantada.

 

REDAÇÃO PLANTE RIO:

Matéria de Sofia Negrão

Fotos de Luiz Franco

Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva