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Da casca ao coração’: como a bananeira uniu arte, memória e culinária no Plante Rio

Por meio do aproveitamento integral da planta, a oficina Mangará: Caminhos da Bananeira reuniu saberes agroecológicos, resgate de histórias de vida e práticas sensoriais no Jardim de Chuva

 

Na tarde do último sábado, dia 19, o espaço do Jardim de Chuva transformou-se em um ponto de encontro entre terra, arte e ancestralidade durante a celebração dos 10 anos do Plante Rio. Mais de 20 participantes reuniram-se para vivenciar a oficina Mangará: Caminhos da Bananeira, promovida pelo coletivo Jornada da Mata.

A proposta da vivência foi demonstrar que, muito além da fruta, a bananeira é alimento, medicina, abrigo, fibra, arte, fertilidade e memória. Ao longo do encontro, o público foi convidado a reconhecer a planta em sua totalidade, explorando seus múltiplos usos.

Da Regeneração Ambiental ao Resgate do Alimento Popular

O coletivo Jornada da Mata nasceu a partir de um curso de desenvolvimento pessoal e coletivo voltado para 15 jovens, realizado em 2023, apoiado em pilares como ancestralidade, autocuidado, alimentação, movimento, comunicação e outras economias. Desta iniciativa, formou-se um grupo engajado em promover ações de regeneração ambiental no estado do Rio de Janeiro.

Luna Camargo, cofundadora e coordenadora do projeto, explica que a escolha da bananeira para a oficina fundamenta-se na sua acessibilidade e na imensa riqueza de recursos que ela oferece: “Exploramos todas as possibilidades de usar a banana, tanto na agrofloresta quanto na alimentação e na medicina, promovendo o aproveitamento integral do alimento, desde a casca até o coração. É uma forma de trazer a importância de uma planta que representa uma abundância imensa e que é extremamente popular no Brasil, ficando acessível para todo mundo”.

Memória, Afeto e Sustento

Após uma roda de abertura com alongamento e respiração consciente, os participantes vivenciaram uma dinâmica de partilha. Ao redor da instalação, cada pessoa escolheu uma parte da bananeira, que estava desmanchada no chão, para relatar suas memórias, afetos e conexões com a planta.

Foi nesse momento que o engenheiro agrônomo Renato Nazário, de 35 anos, compartilhou a trajetória de sua família, originária de Itaguaru, no interior de Goiás. Filho de um frentista e de uma enfermeira de raízes no campo, Renato narrou como seu pai rompeu com o trabalho urbano e buscou no cultivo da banana-maçã, incentivado por políticas públicas como o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).  

“A banana foi uma cultura muito importante para o incremento de renda da família; passamos a ser praticamente dependentes dela. Foi o que possibilitou a minha transição de cidades, me incentivando a fazer uma escola técnica e, mais tarde, ingressar na universidade rural no Rio de Janeiro. Devo tudo a essa cultura e ao trabalho dos meus pais”, destacou Renato.

Além de marcar o cotidiano alimentar da casa, a bananeira despertou a vocação profissional de Renato aos 14 anos. Hoje, após anos estudando sistemas agroecológicos e agroflorestais, ele enfatiza a função ecológica da planta na retenção de umidade, ciclagem de matéria orgânica e adubação do solo. 

Circuito Sensorial: Xarope, Banquete e Arte

A programação do circuito sensorial seguiu em estações práticas projetadas para vivenciar as múltiplas possibilidades da planta. 

Na etapa medicinal, os participantes aprenderam a produzir um xarope utilizando o mangará, carinhosamente chamado de coração da bananeira. Na sequência, um banquete focado no aproveitamento integral do alimento, servindo receitas preparadas com palmito, casca de banana e ceviche de banana-da-terra, utilizando as próprias folhas do mangará como pratos ecológicos.

O percurso encerrou-se na estação artística, onde os participantes puderam expressar sua criatividade pintando sobre a palha seca da bananeira com tinta natural produzida a partir do jenipapo. 

Nessa dinâmica, o grupo registrou palavras que sintetizavam os sentimentos, conexões e aprendizados vivenciados ao longo da oficina, consolidando a integração entre nutrição, saúde, arte e afeto proposta pela vivência.

Renovação e Multiplicação

Para encerrar a vivência, o coletivo Jornada na Mata realizou o manejo do rizoma e o plantio de uma bananeira no Jardim de Chuva da Fundição Progresso, celebrando os ciclos de renovação da terra. Ao final, a muda foi sorteada entre os participantes, simbolizando a multiplicação dos conhecimentos trabalhados durante a tarde.

Conheça mais sobre o Coletivo Jornada na Mata no Instagram: @jornadadamata

 

REDAÇÃO PLANTE RIO:

Matéria de João Gabriel Nicolli

Fotos de Luiz Franco

Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva